A ilusão que temos, quando somos novos, de que tudo se vai manter igual, toda a vida, é algo muito bom. Simplesmente não pensamos no fim das coisas. Pelo menos eu não pensei.

Crescer é tão bom, não é? Depois quando começam a vir as responsabilidades dá-nos a vontade de dizer “Pronto, posso parar agora?”. Mas só chegamos a esta conclusão quando já passámos a meta. Quando já chegámos a onde nunca pensámos chegar. É tudo tão rápido.

 

Fui a casa da minha avó, já falecida, buscar as orquídeas que lhe ofereci durante anos e que agora voltam para mim. Enquanto estive ali, sozinho, gravei na memória algo que sabia que já não ia ver mais.

Esta foi a minha casa até aos 12 – 13 anos. O meu mundo.

Nasci aqui, no tempo em que se nascia em casa e aquela janela, à esquerda foi a janela do meu quarto. Do meu quarto e do meu irmão e também da sala. Estavamos todos ali aconchegados e nunca apertados. Só anos depois é que tomei consciência de como o quartinho era pequenino. Enquanto lá vivi, nunca sequer pensei nisso.

Ali cresci, ali brinquei, ali tinha o meu aquário, ao lado da televisão. Não sei para qual olhei mais. Ainda hoje tenho um fascínio por aquários. Naquele quartinho aprendi a ler e mais uma estante foi acrescentada para os meus livros. Muitas fantasias foram criadas ali. Muitos jogos, muitos desenhos, muitos trabalhos de casa, mudanças de dentes, dias de febre passados na cama, histórias contadas, dias de chuva mas sobretudo de sol…

Foi também naquele quartinho que me deitei uma noite e na manhã seguinte acordei com um irmão que também tinha nascido no quarto dos meus pais, ao lado. E quando crescemos lá se encaixou um beliche para os dois. O mais velho em cima e o mais novo em baixo. Quantas brincadeiras não aconteceram ali. Quantos livros não li no meu beliche, com o meu candieirinho de leitura pregado na parede. Nunca tive a noção de que tudo era tão pequeno até começar a bater com a cabeça no cimo da porta. Estava mais alto que o meu pai. As portas tinham sido feitas à sua altura.

Foi naquele espaço em frente à casa que aprendi tanta coisa. Que brinquei, que andei de triciclo e depois de bicicleta, onde brincava com os os meus bonecos (figurinhas de PVC) e com os animais, o Polí, o cão castanho de pêlo lãzudo, a minha gata Pantufa que me chamava à minha janela quando chegava a hora de ter gatinhos, os hamsters, os canários, cujas gaiolas eram penduradas nas paredes entre as janelas. Tive tudo ali. Como é que eu iria ter noção que aquilo era tão pequeno se ali era o meu mundo? Havia tanto espaço para correr, para crescer, para brincar com os primos. Só muitos anos depois reparei que aquilo era ínfimo. Nunca tive falta de nada e muito menos de espaço.

Naquele quintal haviam três casas, a casa dos meus avós paternos, a nossa casa e a casa do meu tio. Ao todo 10 pessoas ali, mas éramos sempre mais. A rua era nossa.

 

A casa dos meus avós e portão que dava para o quintal de acesso às nossas casas. O portão era antes cor de tijolo, ou pelo menos é assim que me lembro dele.

E esta é a rua como está hoje. Ao fundo, onde eu pintei de verde, havia um canavial. A rua acabava ali. E tinhamos família em quase todas as casas. Logo abaixo os meus bisavós e a seguir tios-avós e primas. A casa do fundo esteve anos fechada e era um mistério, o jardim era recluso e tinha um portão muito pequeno mas fácil de saltar. À frente mais tios e primos que vinham nas férias, depois vizinhos e tios. Uma rua onde brinquei tanto, ri e chorei. E que hoje recordo com saudade. Houve um tempo que me custava lá ir, hoje já não. Já não é a minha rua. Já não se ouvem gritos e risadas de crianças a brincar ao cair da tarde, já não se ouvem mães a chamar os filhos para irem para casa porque já era noite e nós teimavamos em brincar só mais um bocadinho até escurecer. E tios e tias, e primos e amigos, festas de anos, gente a vir passar férias, festas de Natal, fogueiras de São João, casamentos… houve tudo ali. Os meus bisavós viviam ali e todos, uma família grande, convergiamos para o núcleo familiar como abelhas para a sua colmeia.

E agora a casa onde eu nasci vai ser derrubada. Já não terá muito tempo de vida. Outras casas vão nascer ali, onde eu nasci. Mas eu não tenho muita pena. Já não há nada ali. Já não há ninguém ali. Os bisavós morreram há muito e os tios dos meus pais também, um a um partiram. A família espalhou-se. Mudaram-se para outras casas e para outras vidas que se espera que sejam melhores. Aquelas casas já só têm gente nas nossas memórias. Mas a vida continua e as recordações são boas, são reconfortantes. E toda aquela gente que ali viveu, cresceu e já partiu,  continuam todos vivos, nas nossas lembranças. Enquanto houver um pai, um tio, um primo, um filho, um neto vivos, toda aquela gente vive também e as histórias vão sendo lembradas  e recontadas.

A casa vai ser demolida mas para mim será sempre a casa onde eu nasci e aprendi a caminhar, a falar, a brincar… e basta-me fechar os olhos para recordar tudo e todos, nos momentos mais felizes.

Mas por vezes custa envelhecer.