Página Oficial de José M. M. Santos

Procurar
Close this search box.

O Silêncio da Neve

Tenho mais de cinquenta anos e nunca tinha visto neve. Tinha visto umas ameaças, umas amostras, nunca nada a que pudesse chamar de neve. Caiu um nevão. Está tudo coberto de neve. Não. Nada.

Tinha visto em filmes mas nos filmes não se sente a neve. Não se ouve o silêncio da neve.

No início de Fevereiro fui numa viagem à Finlândia, Helsínquia e Rovaniemi, na Lapónia. E aí sim. Aí experiênciei a neve. Desde a queda dos pequenos e leves flocos geométricos e estrelados, à sua suavidade e leveza, até às bolas de neve, ao “olha, está a nevar!”, ao enterrar as botas na neve algodão-doce acabado de cair. Ao estalar das nossas pegadas.

A cor da neve é branca, pura, mas a cor que mais uso para descrever as paisagens de neve são os azuis. Tantos azuis.

O som da neve é o silêncio. Na floresta qualquer piar de uma ave, qualquer bater de asas é notado. Um galho que se parte ou uma pinha que cai com o peso do gelo que a cobre. Tudo se nota porque o som da neve é o silêncio.

Nos dias em que estive na Finlândia nunca tive temperaturas positivas. No exterior nem perto do zero. Nove negativos com a sensação térmica de -15ºC, quatorze negativos com sensação térmica de -21ºC, acho que chegámos aos vinte e oito negativos, à noite. Mas não nos importámos e ríamo-nos quando alguém informava o valor das temperaturas.

Agora já sei o que é frio. Tive dois momentos em que o meu telemóvel se desligou com o frio. As pontas dos dedos criaram frieiras. Eu já sabia, se nos nossos invernos isso me acontece imagine-se nos invernos gelados do norte. E eu queria sentir a neve. Numa experiência curta não nos importamos com isso. Quis afagar a neve, quis apanhar os flocos com a língua, deixa-la cair nos meus braços abertos. Celebrar a neve.

Foi uma bonita sensação. Espero que se algum dia me esquecer das coisas, que nunca me esqueça do frio, dos azuis e do silêncio da neve.

Com mais de cinquenta anos, já vi neve.

                                                        Helsínquia
  Rovaniemi, manhã cedinho.
                                            Nascer do sol junto a um rio meio gelado.

 

Loading

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp