O meu Castelo
A não ser que alguém tenha mesmo nascido no castelo, e se aconteceu não há quaisquer registo, eu devo ter sido o ser humano mais novinho que ali viveu.
Estávamos no ano 1969. Em Setembro.
O castelo estava cheio de hóspedes e convidados e a cozinheira, com apenas 22 anos e figura delgada e franzina, quase parecia uma adolescente. No entanto, estava tudo menos delgada, apresentava uma bela barriguinha de grávida, do seu primeiro filho, já em fim de gestação. O Pai Manel estava em Lisboa, cumpria o serviço militar e ela ficava no castelo, só ia a casa quando o marido vinha de licença de fim-de-semana.
E logo no primeiro fim-de-semana de Setembro, com o castelo cheio de hóspedes, a criança resolve nascer.
Os passos são os normais, o rebentar das águas, as dores de parto e o marido que está de licença leva-a para casa onde a criança nasce. Tudo normal. O bebé nasceu um bocadinho para o roxo e não queria chorar. Lá o passaram por água quente e fria, para o despertar com o choque térmico, e não sendo isso suficiente, a parteira ainda lhe teve de dar umas boas nalgadas. E a criança respirou e chorou e neste aparato se deram as boas-vindas a um novo ser humano. A primeira impressão da criança neste novo mundo foi desconforto e dor. Assim se prepara alguém, com pouco minutos de vida, para o futuro. Mas tudo correu bem.
Entretanto o castelo estava com a lotação máxima e todos tinham de comer. Licença de parto era um conceito ainda inexistente à época e logo que a jovem mãe se conseguiu aguentar em pé, lá foi ela, ocupar o seu posto, porque fazia falta e porque a casa estava cheia, a D. Margarida aguentava a cozinha, não havia substitutos, e os hóspedes precisavam de ser alimentados. O dever falou mais alto.
E assim, lá fui eu para o castelo, com cinco dias de idade.
Para os residentes, tanto os patrões como os empregados e até os hóspedes, na altura todos estrangeiros, tudo foi diferente. A vida corria como sempre, mas havia um bebé. Havia uma prioridade, um pequeno ser que requeria cuidados. Para a minha mãe acredito que deve ter sido difícil, cansativo, mas o D. Luís e a D. Margarida eram tudo menos maus patrões ou abusadores. Tudo se resolveu e eu passei a ser a mascote do castelo, cheio de privilégios.
O D. Luís trouxe um berço que parecia uma manjedoura, onde eu dormia e o leite que, quando deixei de mamar, eu bebia vinha com todos os cuidados e limpeza, diariamente e sempre da mesma vaca, para evitar misturas e não me provocar cólicas ou outros problemas. A primeira coisa que o D. Luís fazia de manhã depois de se levantar e de se arranjar era vir ao quarto da minha mãe ver como estava o bebé, como tinha eu passado a noite. Muitas vezes, quando o castelo estava cheio de hóspedes e todos estavam numa azáfama, a D. Margarida não jantava na mesa de refeições e ficava a tomar conta de mim no escritório.
E foi assim durante o primeiro ano da minha vida. Cresci no castelo. Dei lá as primeiras quedas e os primeiros passos, compraram-me uma “Aranha”, onde eu andava por todo o lado e depois pelo meu próprio pé, comecei a andar aos 9 meses. Lá me apareceram os primeiros dentes e passei de carequinha para um bebé com “cabelo de rato”, muito fininho e liso.
Todas as minhas fotografias no álbum de bebé têm o castelo como cenário, tiradas no terraço ou ao colo da minha mãe sentada no muro junto à ponte da entrada, atrás, as heras do castelo. Será por isso que hoje vivo numa casa com algumas paredes tapadas de heras, não sei, mas gosto das heras, porque será?
Tenho fotos com os meus pais e tenho fotos com alguns empregados do castelo. Devo de ser o único que tem até uma foto do Pelé no meu álbum de fotos, e não estou a falar do jogador de futebol, mas sim do cão do castelo que tinha o mesmo nome. Lembro-me de pedir à minha mãe para colocar a foto do Pelé no álbum, com quem eu brincava. Um amigo importante.
Nunca tive medo da armadura que mexia nem do senhor da parede que às vezes ganhava vida. Nunca tive medo dos cantos escuros nem de andar pelos corredores e escadas labirínticas. Conheci todos os cantos do castelo como as palmas da minha mão. Tinha medo de estrangeiros porque falavam comigo e eu não os percebia.
Mesmo depois de os meus pais deixarem o castelo e irem trabalhar para Lisboa, e depois quando geriram o Café Miramar durante alguns anos, o castelo esteve sempre presente, entrava e saía como se fosse a minha casa. Ia ver a minha tia Xila e ia, frequentemente, visitar o D. Luís e a D. Margarida, que cumprimentava, sempre educadamente, com um beijinho.
Lembro-me de ver televisão com eles na sua sala privada, nunca falhávamos os desenhos animados da Heidi e do Marco e as telenovelas todas antigas desde a Gabriela. Li muitos livros da sua biblioteca, li os livros para crianças escritos pela mãe do D. Luís e também os livros romanceados de agronomia escritos pelo seu pai. O meu favorito, que li várias vezes, era “A Quinta do Diabo” e que tratava de… criação de galinhas. Li outros que me foram oferecidos e aconselhados pelo D. Luís, especialmente sobre histórias com animais. Li imensas revistas da National Geographic que o D. Luís assinava. Eles assinavam várias revistas estrangeiras. Fazia Scones com a D. Margarida e lanchávamos os dois, ainda hoje faço uns belos Scones. Lembro-me de o D. Luís trazer uma chocadeira a petróleo e ambos tomámos conta dos ovos que lá foram postos. Acho que foi nessa altura que apareceu o livro “A Quinta do Diabo”. A temperatura e a humidade tinham de ser vigiados e os ovos virados à mão todos os dias, foi uma alegria quando nasceram os patinhos, muitos e durante anos o fosso esteve cheio de patos. Muitas histórias e muitas aventuras no castelo que foi para mim uma segunda casa.
Na adolescência, foram lá também os meus primeiros trabalhos de Verão e conheci bem os preceitos de pôr uma mesa, de servir a comida e tantas outras pequenas coisas que ainda hoje fazem parte de mim. Ainda hoje ponho uma mesa a preceito, mesmo que seja eu sozinho a comer, não me consigo deitar numa cama que não foi feita e aberta antes de deitar. Cozinho e faço sobremesas. Adoro a natureza e livros. Adoro casas e histórias com casas, história, coisas antigas e tanta coisa da cultura inglesa. Eles eram muito “ingleses”. Muitas coisas da educação que os meus pais me deram, muitas delas aprendidas também no castelo, especialmente a minha mãe e a minha tia que foram para lá muito novas, mas também com o meu pai que trabalhou lá também antes de eu nascer. Muito com o D. Luís e a D. Margarida que educavam, ensinavam e contavam histórias e tanta outra gente que por lá passou. A formação como pessoa aprende-se com quem se admira.
E ainda hoje, muitos anos depois de ter ido para lá com cinco dias de idade, tenho sonhos frequentes em que estou no castelo, sempre no passado, com eles todos vivos e eu, adulto, mas com o D. Luís e a D. Margarida e a minha tia Lucília ainda vivos. O cheiro de maçãs lembra-me a garrafeira (uma divisão fresca transformada em despensa no piso térreo) sempre cheia de fruta e legumes e bebidas. O cheiro quente de roupa acabada de passar a ferro lembra-me a ti’ Ana que levava tardes sem fim a passar roupa. Há comidas e sobremesas que para mim “são do castelo”. As folhas das heras que ficavam vermelhas no Outono e que cobriam a longa mesa de jantar. A mesa da cozinha cujo tampo era uma única pedra de mármore branca e gasta onde dei uma valente cabeçada quando andava na “Aranha”. O cheiro do produto que o Manuel Maria e o Álvaro utilizavam para arear as pratas. Os peixes da fonte do terraço, que limpei tantas vezes, com a estátua de bronze do diabinho sem parra. As Gloxínias na guarita do canto, as flores preferidas do D. Luís. Quando ia espiar as Corujas que viviam nos buracos das muralhas. Os dias de Inverno passados a ver filmes, a jogar dados, cartas e Mah-jong. O silêncio das tardes de Verão, mais calmas, quando todos descansavam, mas também os Invernos com menos hóspedes e com a lareira da grande sala acesa. A noite com os candeeiros acesos e as conversas… memórias, recordações e muitas saudades.
Este é o castelo com que sonho, que recordo – “o meu castelo” – e fica no meu coração.
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