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O Castelo de Milfontes em 1755

Hoje, dia 1 de Novembro de 2026, faz 261 anos que ocorreu o grande terramoto de 1755. A maior parte dos documentos, relata o que aconteceu em Lisboa, mas a verdade é que todo o Portugal foi afetado, particularmente toda a costa portuguesa. Assim, é claro que a costa vicentina foi também atingida, bem como Vila Nova de Milfontes.

Cerca de dois anos e dois meses e meio depois da grande tragédia do terramoto, a 18 de Janeiro de 1758, o Secretário de Estado dos Negócios do Reino de Portugal, Sebastião José de Carvalho e Melo, mais conhecido como Conde de Oeiras e posteriormente por Marquês de Pombal, mandou distribuir um questionário detalhado a todas as paróquias do Reino (Portugal Continental e Ilhas). Esse conjunto de perguntas foi enviado aos párocos de cada localidade e tinha obrigatoriamente de ser respondido de forma numerada e rigorosa. Eram três longos questionários divididos por temas:

Sobre a Terra (vila ou lugar), pedindo o nome da localidade, detalhes sobre a população (fogos e habitantes), sobre os efeitos do Terramoto de 1755 (Pergunta 26), sobre os privilégios locais, feiras e defesas militares.

Sobre a Serra, solicitando um registo do nome das serras da região, a sua extensão, rios que lá nascem, fauna, flora, mosteiros isolados e qualidade do solo.

Sobre os Rios, perguntando sobre a existência de rios e ribeiras, o seu nome, caudais, os peixes existentes, pontes, moinhos, navegação e canais de rega.

De todas as respostas recebidas, resultou um importante documento histórico ao qual foi dado o nome de “Memórias Paroquiais de 1758”. Os manuscritos originais, hoje digitalizados, encontram-se guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, organizados em 40 volumes e disponíveis para consulta online.

Com estes documentos, pode-se hoje tirar uma fotografia perfeitamente detalhada do nosso país no século XVIII, conhecer todas as localidades e as características das suas populações (número de habitantes por lugar, o que faziam, o que comiam, que impostos pagavam, etc.). Pode-se avaliar o real nível de destruição provocado pelo terramoto de 1755 em todo o país e pode-se ficar com um registo muito assertivo do património existente (monumentos, pontes, ermidas, castelos e outros), muitos deles desaparecidos ou modificados no tempo presente.

Assim, como curiosidade, as respostas de Vila Nova de Milfontes foram dadas logo no primeiro semestre de 1758 pelo pároco da vila, o Frei Bento Dias Barreto, e o manuscrito original dessas respostas encontra-se integrado no Volume 10 das Memórias Paroquiais de 1758 do Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Sobre a Terra, o pároco descreve a vila de Milfontes com uma população pequena, reflexo da estagnação demográfica da costa alentejana na época. Descreve também a existência do Forte de S. Clemente e a sua importância militar e estratégica e da guarnição para vigiar a barra do rio e defender a costa contra os ataques de piratas e corsários (atividades ainda muito temidas na altura).

Sobre a Serra (O Cercal), ao responder sobre a vizinha Serra do Cercal, o Frei Bento Dias Barreto faz uma nota curiosa sobre a ausência de exploração mineira na época:

“(…) não há na dita serra mina alguma de género algum de metais; nem materiais nem canteis.”

(Embora os romanos tivessem explorado intensamente o ferro e o manganês na região, no século XVIII essa atividade estava completamente esquecida e desativada, algo que só viria a mudar no século XIX).

Sobre o Rio, o pároco descreve o Rio Mira, a importância da sua barra navegável e como o rio servia para o escoamento de produtos agrícolas e para a pesca local. Detalha os tipos de peixe que alimentavam a população da vila e os portos fluviais que faziam a ligação comercial com o interior do concelho de Odemira.

E sobre os efeitos do Terramoto de 1755 (a pergunta Nr. 26) Frei Bento Dias Barreto relata que:

“Tãobem o referido castello desta villa [Nova de Milfontes] padeceo alguma ruina; de modo, que todos os telhádos que cobrem seus edificios (posto que poucos já tinha) inormemente se destruírão, e se pozérão por terra: demoliuce quazi toda a parede de huma caza, que servia de cozinha, cahírão alguns portádos e suas simalhas; abrírão algumas raxas muytas paredes de seus ditos edeficios, campanario do seu sino, e gorita das sentinelas; de maneyra que apenas estão duas cazas com alguma capacidade para a acomodação do cabo e sua familia, às quais o mesmo cabo mandou compor os telhádos todos para nellas poder habitar. E o mais tudo está jazendo nas suas referidas roínas.”

Ou para quem preferir num português mais atual:

Também o referido castelo desta vila sofreu alguma ruína, de modo que todos os telhados que cobrem os seus edifícios (posto que poucos já tinha) enormemente se destruíram e se puseram por terra: demoliu-se quase toda a parede de uma casa que servia de cozinha, caíram alguns portais e respetivas cornijas, abriram algumas rachas em muitas paredes dos seus ditos edifícios, campanário do seu sino e guarita dos sentinelas, de maneira que apenas estão duas casas com alguma capacidade para acomodar o cabo e sua família, às quais o mesmo cabo mandou arranjar os telhados todos para nelas poder habitar. E o restante caiu em ruínas.

Depois deste estado de destruição, o castelo nunca mais foi recuperado porque a sua importância de defesa também deixou de existir. Com o tempo, os ataques dos piratas terminaram e o areamento da barra impediu a entrada de barcos maiores durante bastante tempo.

O castelo foi ficando cada vez mais destruído com o passar do tempo e vários edifícios próximos, incluindo a Estação Salva-Vidas inaugurada em 1929, foram construídos aproveitando a pedra do forte em ruínas.

A história e o destino do Forte de S. Clemente (O Castelo de Milfontes) só iria mudar com a compra do monumento pelo D. Luís de Castro e Almeida da Motta Prego em 1939.

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